
29 de Junho de 1958.
Foi o dia do encontro: da fome com a vontade de comer, do rio com o mar, da prosa com a poesia. Amor ao primeiro título. Brasileiro e o futebol. Depois do terrível desencontro de 50, finalmente aconteceu. E não poderia ser melhor. Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo.Técnico: Vicente Feola. Gols marcados por Vavá (2), Pelé (2) e Zagallo. Essa era a máquina. Pelé, com 17. Garrincha não era muito mais velho. Gilmar, dizem, pegava até resfriado lá atrás. Se os alas são uma invenção moderna como querem alguns, Nilton Santos, em 58 era pós moderno. Uma antecipação do futuro. A enciclopédia do futebol. Djalma Santos era fantástico e o capitão Bellini comandava todo o mundo com aquela catega que só ele mesmo tinha. Zagalo começava a se tornar um dos maiores senão o maior vencedor da história das copas. Didi. Mestre Didi. O homem da Folha Seca. Que outro nome poderiam dar para aquele chute ? Vavá, O Peito de Aço. Que mais se poderia querer ? Zito era volante que não deixava passar nem vento, nem raio de sol. E se passava era só para fazer brilhar as atuações dos zagueiros. Orlando só não era mais técnico por que não tinha espaço. Dizem que os adversários o admiravam de tanta que era seu estilo elegante e técnico. Bem, mas Garrincha e Pelé são um capítulo a parte. Tudo que se disser de Pelé e de Garrincha precisará ser desqualificado pois será pouco. Picasso não conseguiria pintar Pelé ou Garrincha. Augusto dos Anjos não conseguiria traduzir em poesia. Pasolini no cinema. Reúnam todos os gênios, Einstein e Da Vinci entre eles e nenhum conseguirá descrever Pelé ou Garrincha. Dizem que o jogador russo que marcou o Garrincha naquele jogo depois, teve muitos filhos. E o cara saiu daquele jogo tão tonto, mas tão tonto que todos seus filhos, netos, bisnetos, tataranetos e outros descendentes diretos nasceram com labirintite. Pois bem, foi assim. Uma estréia de três a zero na Áustria. Passar pela Áustria foi como passar por um desconhecido, na rua. Ao natural. Contra os ingleses, da rainha, e do futuro Beatles, um respeitoso zero a zero. Muito bom. Ali os ingleses perceberam que o que eles criaram como esporte estava se transformando em obra de arte. E os artistas vestiam verde e amarelo. Contra a Rússia só o Mané Garrincha jogou. Precisava mais ? E veio a segunda fase. Um tal de País de Gales, que , dizem, tinha uma grande defesa. Seja como for, foi um a zero. Teria sido um resultado magro não fosse o gol de Pelé. Matou no peito. Chapeuzinho. Fantástico. Zagueiro desesperado vendo a neguinha subindo, suave, tirando sarro do desespero do mesmo e se oferecendo do outro lado pro neguinho meter lá no fundo. Se naquele momento alguém se curvasse para o rei Gustavsson ele apontaria para o campo e diria: - Lá está o novo rei. E veio a França, do artilheiro Fontaine. Não deu nem pra sofrer. Cinco a dois. Insofismável. Indescritível. Inenarrável. E veio a final. Brasil x Suécia. Como diria o meu free endezinho Beto, O Cara, a seleção entrou em campo com seu Manto Azul. Sagrado. Azul deveria estar o céu naquele dia. Azul estava o País inteiro. Azul da cor do mar, como diria Tim Maia. E já que o negócio é cinco a dois então tome mais cinco, pra cima da dona da casa Suécia. Assim, sem a menor cerimônia. Tudo muito natural. Como devem ser os amigos que visitam a casa dos amigos. Ou alguém acha que os suecos não se apaixonaram pelas atuações do escrete canarinho ? Bem , consta que as suecas não só se apaixonaram pelo Pelé e pelo Garrincha como os dois traçaram tudo que veio. Não interessava se era sueca, cueca, mueca, vueca, meleca. Terminando em eca era com eles mesmo. Quando o capitão beijo aquela taça, não foi um beijo comum dado por um homem só. Foi o beijo de todos os brasileiros. Foi um beijo para o passado, para um país que perdeu tudo em 50. Para um país que vivia a angústia de uma decisão com o ouvido no rádio, sem ver, e ainda sofrendo com o trauma de 50 e o fracasso de 54. Foi um beijo para o futuro. Para que o mundo soubesse que Brasil e futebol não era somente um esporte. É um caso de amor. O rei Gustavsson, da Suécia finalmente pode coroar Pelé, O Rei, The King, O Atleta do Século, sua majestade, o Rei. E foi assim, como ver o mar, como tocar no céu, como beijar as estrelas. E ,Zuenir Ventura que vá me desculpar mas 1958 também não terminou. Aliás, alguém poderia escrever um livro e colocar como título: 1958, O Ano em que tudo começou.Ah, e antes que eu me esqueça. O Feola só podia dormir mesmo. Deve ter sido um tédio pra ele saber como tudo ia terminar. Brasil Campeão.
E, para homenagear o jogador que, com dezessete anos, se transformou em rei, parou guerras e encantou o mundo. O cara que, parafraseando Jonh Lennon, se a Seleção Brasileira não se chamasse Seleção Brasileira, poderia ser chamada de Pelé , vou colocar um som de uma cantora que eu gosto muito e que não tem nada de brasileira. É rival. La negra. Volver a los 17. Com Caetano, Chico, Milton Nascimento.
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