terça-feira, 6 de maio de 2008

MAIO, DE MEIA, OITO .


Maio de 1968. O mundo futuro começava a mudar. Os estudantes franceses tomavam universidades e, no Brasil, Vladimir Palmeira e cia assumiam que o passado era uma roupa que não servia mais e as velhas idéias não faziam mais sentido. Era proibido proibir. Viver era melhor que sonhar. Cineastas importantes tiravam seus filmes de Cannes. Os estudantes tinham apoio. Os trabalhadores paravam Paris. Mesmo se Deus existisse, seria preciso suprimi-lo. Mais direto impossível! O maior barato é que ninguém entendia absolutamente nada. Sartre confessou isso dizendo que estava lá mas não sabia pra que ou por que. O certo era que ninguém mais agüentava a doutrinação capitalista, a imprensa oficial, a ditadura da informação manipulada. No Vietnã, os congs começavam a mostrar as caras . Era ofensiva do Tet. Isso em janeiro de 68. Luther King assassinado, os hippies com seus trajes coloridos, flores. Faça amor não faça a guerra. Era Woodstock. É proibido proibir. Em Nanterre, os excluídos se rebelavam. Eram tempos de contestação. A única coisa incontestável é que o futuro estava mudando, para o bem e para o mal. A Primavera de Praga. Durou pouco, mas foi eterna enquanto durou. Não era informática, mas era um vírus que derrubou o muro de Berlin e implodiu a URSS. Era a liberdade, a igualdade e a fraternidade levada ao extremo. O Álbum Branco: Happiness Is a Warm Gun, Ob-La-Di, Ob-La-Da e tudo o mais. Eram anos de Godard, Truffault. Era proibido proibir. Os jogos olímpicos estavam definitivamente politizados : Tommie Smith e John Carlos recebem medalha com o punho erguido, luvas negras. Era o Black Power. E ninguém podia impedir. Eram os fatos se multiplicando. Por aqui, ninguém contou melhor a história do que o jornalista Zuenir Ventura em 1968 O ano que não terminou. Uma leitura pra lá de espetacular, engraçada. Nenhuma mais engraçada que a história da primeira vez que o genial, caretão e anti-drogas Glauber Rocha fumou maconha. Outra muito dez, a da militante esquerdista no baile de reveillon, dos Buarque de Holanda. Aliás, o meia oito brasileiro, tinha que começar em uma festa, segundo o próprio Zuenir. Uma festa em que os que não foram não sabem o que perderam e os que foram não sabem o que ganharam. Aqui foi mais trágico esse ritual de passagem. Em maio , Edson Luis, estudante era morto no restaurante Calabouço. E era só um protesto contra o aumento da comida, no restaurante. Daí para a passeata dos cem mil foi um passo. O maio se estendia. A ditadura censurava as artes e mais tarde iria censurar a imprensa. Na mais espetácular burla à censura, o Jornal do Brasil previa , com uma temperatura de quarenta graus à sombras, o tempo: Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos.E, na mesma edição, anunciava a passagem do dia dos cegos, com uma foto do general Costa e Silva entregando espadas aos guardas marinhos recém formados. Teve outras. Um dos majores "ixperrtos" que havia deixado passar a brincaderinha não gostou, mas a turma do deixa disso, pelo menos naquele momento, acalmou os ânimos em geral. No nosso maio de meia oito, alongado, Geraldo Vandré cantava Pra não dizer que não falei de flores. Nascia um hino. Chico Buarque viu sua peça Roda Vida estrear no teatro com uma montagem revolucionária, contestatória provocativa. Os estudantes se reuniram em Ibiúna, com uma zona geral. Todo o mundo preso, alguns deportados, torturados, mortos. Mas o pior dos piores é que o que começou em meia oito, terminou no mesmo ano. Os generais, resolveram que precisavam “proteger” o país de toda essa influência maléfica, dos comedores de criancinhas e de tudo que não representava os valores defendidos pela inteligência da caserna. Veio o AI-5 e com ele entramos na idade das trevas. Durante mais de vinte anos foi proibido não proibir e , mesmo que houvesse liberdade, eles precisavam suprimi-la. E aqui estamos nós, caminhando e cantando e seguindo a canção e, eu, pelo menos, probido de proibir...

Um comentário:

KABEÇA disse...

Já pensou tu naquela época?? oque tu faria?? iria pra rua como os outros ou ficaria entocado tipo pra não se meter em confusão ??? hehehehehehe eu ia pra rua... qto mais bagunça melhor...