segunda-feira, 12 de maio de 2008

Moisa, o goleiro das defesas impossíveis.

Bem, como o Jogo das Estrelas só tem estrelas e, se tem o artilheiro dos gols impossíveis, têm também o goleiro das defesas impossíveis. Moisa. Moisés, o homem que abriu o mar daquela cor (desculpem, mas a partir de agora só me refiro ao co-irmão como o “eles” e não pronuncio mais a palavra “aquela cor” a não ser quando me refiro `a minha escola de samba, a Unidos da Cova da Onça cuja cor é o vermelho). Deu pra entender ? Bem, você poderia ter entendido sem dar, mas deixa pra lá. A questão é que teve uma partida daquelas em que dividimos os participantes por torcida. Jogamos, os gremistas, lendários tricolores dos pampas, contra os “eles”. O Moisés torce para o “eles” e foi para o gol. Começou o jogo e o Duka ficou mais posicionado, tipo Romário, só urubuservando, como quem não quer nada, mas pronto para dar o bote. Enquanto isso, o nosso segundo atacante, Sopinha, jogando com a dez, se deslocava para todos os lados, confundindo a zaga adversária, deixando os adversários mais perdidos que cobra em dia de vento norte. Fiquei ali, no meio, tentando armar alguma coisa. Armei uma confusão para o nosso time pois, me sentindo Rivelino, fui dar um elástico no Juarez que roubou a bola, passou pela zaga e encaçapou. Um a zero. Quem nasceu pra Jorge Mutti não pode ser Rivelino. Fomos à luta e numa escapada, pela direita, Sopinha foi chutar, errou em bola, ela bateu no morro artilheiro e sobrou para o Duka, livre, guardar. Um a um. Melhorou. Final primeiro tempo. Equipes cansadas. Água, esticar as pernas, analisar os erros, acertar tudo e voltar. Começa segundo tempo. Pego uma sobra no meio , passo pelo Juarez e lanço Sopinha, de prima. Ele domina e, com a esquerda, quase sem pensar, mete rasteirinha, no canto. Fui sair pra comemorar mas , de repente , um braço esticado, tocando com a ponta dos dedos e ela saindo caprichosa pela linha de fundo. Goleiro de sorte, pensei. Escanteio batido. Segundo Pau. Duka, vê o goleiro saindo e só escora. Ela descreve uma elipse perfeita e vai caindo no outro lado, ângulo superior. Mas lá estava ele, de novo. Por um momento pensei estar vendo o homem borracha dos Quatro Fantásticos. E pensei: essa bola foi tirada pela Mulher Invisível, só pode ser. Foi demais. Melhor preparados fisicamente começamos a pressionar. Peguei um sem pulo de fora da área, depois que um zagueiro afastou mal. Móisés caiu para a direita, pronto para a defesa mas o Duka desviou, sutilmente. Ela ia se perder entre as redes no meio do gol. Só que os Deuses azuis estavam em algum lugar do Hawai curtindo ondas, aquele dia. Só pode ser isso. O pé direito ficou e ela bateu, subiu, beijou o travessão, um beijo rápido, roubado e se perdeu em algum ponto entre a linha de fundo e a goleira. Eles tentavam nos surpreender com contra-ataques perigosos, mas tranqüilo. Pois bem, resolvemos então mudar de tática, adiantamos a marcação e fizemos uma Blitzkrieg. Nos transformamos em panzers, velozes e furiosos. Sopinha parecia uma divisão inteira do Afrika Korps, passando por cima, esmagando. A guerra relâmpago começara, Peguei uma bola na cabeça da grande área e chutei forte, cruzado. Moises espalmou pra o lado. Sopinha veio na corrida e emendou. Moisés já havia se recuperado, de novo e tirou, com o peito. Na confusão da polvadeira, Duka ainda tentou um ultimo chute mas lá estava o Moisés, saído não sei de onde, nem como, com o pé, afastando o perigo da área. Báh, o jogo ia terminar. Duka recebe, o centro-médio vem rasgando, ele dá uma gambeta e o cara vai parar em algum lugar perto da Bolívia. O chute sai colocado, cruzado, ângulo superior direito. Mas lá estava ele, o goleiro das defesas impossíveis e inimagináveis. Parecia uma águia voando em direção à um coelho indefeso. Plasticidade total. O tapa na bola. Ela, caprichosa, vai na cabeça do Sopinha que toca com violência. O toque na trave e ela volta, suave, para os braços do goleiro que já estava só observando, abandonado. Ela se aconchegou nos braços do Moisés e ali terminou o jogo. Um a um. Tivemos outras chances que nem dá pra contar pois pareceriam fantasia. Depois descobri que os Deuses, naquele dia não estavam no Hawai, nem em algum outro lugar, de férias, estavam na arquibancada, observando tudo e tentando entender o fato de que, sem intervenção divina, um goleiro tenha conseguido fazer tudo aquilo. Coisas do futebol e, é claro, de estrelas.

PS: Na foto, Barbosa, goleiro da seleção em 50. Tem gente que jogou para o Barbosa a culpa pela derrota em 50. O que ninguém conta é que uma semana antes tínhamos tomado três ou quatro da seleção uruguaia. Ao natural. Barbosa, outro goleiro das defesas impossíveis. Só não conseguiu se defender do preconceito. Mas isso é outra história.

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